Nas vésperas da principal feira portuguesa de joalharia, ourivesaria e relojoaria, na EXPONOR de 17 a 20 próximos, mestre joalheiro reclama cuidados e meios adicionais para proteger os consumidores e acautelar o mercado online de joias, onde crescem as falsificações. Contrafação no segmento causam prejuízos anuais superiores a 83 milhões de euros às empresas nacionais
O crescimento exponencial do comércio electrónico tem vindo a incrementar ano após ano os negócios do setor de ourivesaria e joalharia, a uma escala global, mas, tal como acontece igualmente em Portugal, está também a trazer desafios proporcionais. Alguns dos quais estão a abalar a confiança dos consumidores na qualidade das joias vendidas online – o que está a preocupar fabricantes, centros tecnológicos, organismos reguladores e profissionais.
Na lei da “selva” do ecommerce não falta quem esteja a vender “gato por lebre”. E numa fronteira que não conhece barreiras – e onde cada vez mais nem tudo o que reluz é ouro – proliferam exemplos de “comerciantes” e empresas que até estão a fazer passar por prata produtos com incorporação de metais pesados, como o cádmio, ou peças em ouro onde já foram várias vezes detetados metais radioativos com propriedades prejudiciais à saúde humana. O alerta vem da parte do Mestre joalheiro João Villares, diretor técnico da Engenho & Arte – Escola de Joalharia Contemporânea, uma das mais conhecidas instituições de formação do setor e participante na 35.ª edição da Portojóia – Feira Internacional de Joalharia, Ourivesaria e Relojoaria, no cartaz da EXPONOR nos próximos dias, de 17 (quinta-feira) a 20 (domingo).
“Ainda impera alguma desregulação no comércio online de metais nobres e pedras preciosas. É uma realidade transversal a toda a Europa, incluindo Portugal, e que torna urgentes medidas de proteção da indústria e dos consumidores europeus. Enquanto isso, é importante que os clientes finais comprem joias, sim, mas em lojas de confiança, onde podem, por lei, pedir uma lupa e o respectivo quadro oficial publicado pela contrastaria portuguesa, entidade responsável por certificar a pureza das peças fabricadas com metais preciosos de fabrico nacional e importadas, para confirmar os contrastes com os diferentes tipos de percentagem dos metais preciosos. O mercado está ainda a tentar acomodar-se legalmente ao ‘vale tudo’ que impera nos marketplaces digitais e em inúmeras plataformas online”, adverte o fundador da Engenho & Arte.
Para agravar o contexto, a valorização do ouro e da prata dos mercados mundiais está a tornar cada vez mais inacessível a aquisição de joias pelos consumidores, que, ao procurar alternativas e preços mais baratos, acabam por ser presas fáceis no comércio online, porque desprotegidas, sem conhecimento técnico, inclusive devido a uma transação desmaterializada, que não permite verificar a qualidade dos produtos antecipadamente.
Sintomaticamente, o subsetor de “Compras, Moda e Joalharia” liderava, no primeiro semestre, o volume de reclamações por fraude no comércio digital, representando 26,76% do total registado no Portal da Queixa. E o Instituto da Propriedade Intelectual da União Europeia apontou que as contrafações nos setores de joias, relógios e malas causam prejuízos anuais de mais de 83 milhões de euros em Portugal.
O mestre joalheiro evoca, adicionalmente, uma investigação de há pouco mais de um mês, tornada pública pelo jornal “Sunday Times”, que revelou que inúmeras peças transacionadas através da Amazon e da TikTok Shop – onde abundam vendedores independentes -, como suposta prata de lei 925, continham quantidades extremamente elevadas de cádmio (milhares de vezes acima do limite legal). Trata-se de um metal de cor prateada utilizado tradicionalmente em determinados processos industriais, baterias e revestimentos metálicos, e que tem a utilização em joalharia severamente restringida, uma vez que se acumula progressivamente no organismo e a exposição contínua pode causar danos na saúde, inclusive cancro.
Após analisar uma amostra aleatória de anéis, pulseiras e pingentes adquirida através de marketplaces eletrónicos, para a mesma investigação, o Birmingham Assay Office, um dos laboratórios mais prestigiados do Reino Unido na certificação de metais nobres, foi contundente nas conclusões. Mas, não se trata de um caso isolado, uma vez que, nas últimas semanas, o Office for Product Safety and Standards do Reino Unido emitiu também vários avisos oficiais sobre anéis e brincos vendidos através da Amazon que continham altíssimas percentagens de cádmio, ordenando proibição de entrada dos produtos no mercado britânico.
Segundo revela o especialista João Villares, mais de 80% de peças contrafeitas nos últimos anos, e marcadas com o famoso 925 milésimas de prata, são fabricadas com ZAMAC, uma liga de metais pesados e de baixo ponto de fusão composta por zinco, alumínio, magnésio e cobre, usada também para fabricar desde peças de automóvel a emblemas militares e pins a um preço imbatível e de rápida fabricação.
Na 35.ª edição da Portojóia, que congregará aproximadamente uma centena de expositores e transformará a EXPONOR, em Matosinhos, na maior plataforma estratégica de negócio e de ligação entre os principais intervenientes do setor, durante quatro dias, a Escola Engenho & Arte destacará a reciclagem de peças de ourivesaria. “Do velho se faz novo” é o nome da iniciativa, que demonstrará, através de impressão 3D com materiais reciclados, técnicas de reaproveitamento de materiais e gravação manual – uma iniciativa que alia sustentabilidade, inovação e valorização dos ofícios e que convida os visitantes a descobrir novas formas de transformar e reutilizar recursos.
Mas, não faltam iniciativas complementares no principal evento de ourivesaria, joalharia e relojoaria português (ver programa em anexo).
O mote do evento deste ano é “Luxury Redefined”. Para refletir a evolução do luxo contemporâneo, que vai além da ostentação e valoriza autenticidade, sustentabilidade e exclusividade.
Síntese:
Portojóia – Feira Internacional de Joalharia, Ourivesaria e Relojoaria
Data: de 17 a 20 de setembro de 2026
Horário: das 10h00 às 20h00, nos dias 17, 18 e 19; das 10h00 às 18h00, no dia 20
Organização e local: EXPONOR – Feira Internacional do Porto
Perfil dos expositores: marcas de joalharia e ourivesaria, relojoarias e marcas de relógios, designers independentes, fornecedores de matérias-primas e equipamentos, serviços, associações e entidades setoriais
Perfil dos visitantes: retalhistas de joalharia e relojoaria, compradores internacionais, designers e criadores, empresas de decoração e luxo, media especializada e influenciadores
Website: https://exponor.pt/portojoia/